Os Traços da Ilusão

25.03.2017


Indiana Jones e a Grande Cruzada.


Missão Impossível.

Lemos hoje o teórico húngaro Béla Balázs e encontramos uma interpelação que não perdeu pertinência: pode o cinema salvar a existência das coisas? Isto é: podemos nós evitar o esquecimento e o desconhecimento do mundo através do cinema? O cineasta alemão Wim Wenders escreveu sobre a magia ligada ao espanto do registo, quer como suspensão da inexorabilidade do tempo, quer como fixação de instantes supreendentes:

Mesmo no começo — e dele muito restou —, para mim, fazer filmes era: colocar-se a câmara algures e dirigi-la para alguma coisa muito concreta, e depois não fazer mais nada, deixá-la apenas correr. E os filmes que mais me impressionavam eram também os dos realizadores muito, muito antigos, da viragem do século, que gravavam apenas e se admiravam que depois algo tivesse no material. Estava-se, muito simplesmente, fascinado pelo facto de se poder fazer uma imagem de alguma coisa em movimento e de se poder revê-la.[1]

É a câmara como “uma arma contra a miséria das coisas, nomeadamente contra o seu desaparecimento”.[2] O espanto aparece quase como uma reacção à evidência. A câmara é um aparelho constituído por inúmeros filtros, entre os quais a objectiva que capta objectivamente a partir de parâmetros subjectivos — capta, mas não percepciona. A ilusão que este dispositivo também pode criar é aceite, uma e outra vez, pelo processo neurofisiológico da percepção humana do espectador como uma verdade (in)acreditável.

A cumplicidade com as imagens não nasce das características do simples visível, mas também, por exemplo, de complexas relações de associação. Uma imagem não existe só. Transporta referências, evoca significados, produz significações. Há filmes que abrem um continente lúdico para o espectador composto de tempos e espaços efémeros em permanente reformulação. Observe-se a sequência de perseguição que inicia Indiana Jones e a Grande Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989), realizado por Steven Spielberg, e, com redobrado cuidado, o fabuloso raccord que liga o jovem ao homem, através de um chapéu.

Chamemos transcendência material das imagens a estes saltos de imaginação no cinema. Em Missão Impossível (Mission: Impossible, 1996), Brian De Palma filmou de forma dedicada essa relação, escrutinando a virtualidade das imagens, as imagens das imagens. As personagens vivem num espaço sem fronteiras onde tudo é potencialmente ilusório. Toda a verdade pode ser desmontada em mentira, e vice-versa, porque uma e a outra se misturam e disputam a capacidade de existirem. Num determinado momento, os óculos-câmara desaparecem no ecrã, como que engolidos pela imagem, quando a focagem passa do primeiro plano para um plano mais distante onde está um Ethan Hunt (Tom Cruise) mascarado. Neste desaparecimento da câmara sai reforçado um olhar. Um olhar sobre os circuitos e a circulação das imagens.

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[1] Wim Wenders, A Lógica das Imagens [1988], trad. Maria Alexandra A. Lopes (Lisboa: Edições 70, 1990), p. 13.
[2] Ibid., p. 12.