Sucessivos Espantos

12.07.2019


Valha-me Deus.

Para além de diferenças e rupturas, acidentes e contradições, a obra de Jean-Luc Godard foi sempre comandada por uma tenaz pedagogia ligada ao desejo de ver. Em muitos momentos do seu cinema, o dispositivo é tornado visível: da estrutura espacial de Tudo Vai Bem (Tout va bien, 1972) à mão que avança sobre a lente em Valha-me Deus (Hélas pour moi, 1993). Nos seus filmes, toda a imagem é o resultado da colisão entre a teia da matéria e o vetor da imaginação e do pensamento.

A consciência exacta da solidão de cada ser — no limite, de cada imagem — num universo saturado de comunicação e desencantado pela obrigação de comunicar é uma das questões centrais de Valha-me Deus. Obras como esta assemelham-se a paisagens de encontros e desencontros de solidões que se cruzam. A relação com os corpos e os espíritos é tão ascética quanto carnal. São exercícios do olhar gerados a partir da própria dificuldade de ver. Em Valha-me Deus, os movimentos dos actores e o ritmo das imagens recompõem o mundo a cada instante através de sucessivos espantos.

Lives in Transition

08.06.2019

1st International Conference on Cinema, Philosophy and... Children's World

07.06.2019


La Ciénaga.

The first international conference on cinema, philosophy and children’s world will be held next week in Lisbon, organised by Nova Institute of Philosophy, in a partnership with Nova Institute of Communication and the Centre for 20th Century Interdisciplinary Studies - University of Coimbra. The complete program is available here. I am chairing Deborah Martin’s (University College London) keynote session, “‘Seen Through Gestures’: Children’s Hands, Space and the Child’s World in Film”, on the second day. La Ciénaga (2001), directed by Lucrecia Martel, will be screened after her talk and she will make some comments on the film.

Dia Aberto: Mestrados do DHEEAA
(incluindo o Mestrado em Estudos Artísticos)

17.06.2019

Afroeuropeans

15.06.2019

Esta Residência Artística é organizada no âmbito do projeto de investigação “À margem do cinema português: estudo sobre o cinema afrodescendente produzido em Portugal” financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e conta com a participação dos artistas afro-europeus: Benjamin Abras, Silas Tiny, Sofia Rodrigues e Vanessa Fernandes. É coordenada pela investigadora e professora Michelle Sales (UFRJ/CEIS20) com assistência de Jorge Cabrera (CAUC), e conta com a minha participação (FLUC/CEIS20/LIPA), do Pedro Pousada (CAUC), do Fernando Matos Oliveira (FLUC/CEIS20/TAGV) e do artista André Feitosa (CAUC).

O programa visa proporcionar espaço criativo e de diálogo para artistas afro-europeus a fim de catalisar novos trabalhos, projetos em comum e formação de novas redes de trabalho e colaboração. Esta residência interessa-se pelo aprofundamento de questões políticas e identitárias que dizem respeito aos modos de pensar, sentir e existir afro-europeus em contextos urbanos violentos, pós-industriais e pós-coloniais em crise.

Esta iniciativa conta com o apoio do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, do Laboratório de Investigação e Práticas Artísticas (LIPA) da Universidade de Coimbra, do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) e do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.

Digitações

11.06.2019

Estarei pelo Brasil daqui a alguns dias, mais concretamente na Universidade de Brasília. Deixo o convite para a palestra que vou apresentar no dia 18, organizada pela Faculdade de Comunicação (FAC), o Grupo de Pesquisa em Literatura, Artes e Midias (LIAME), o Instituto de Letras (IL), e o Programa de Pós-Graduação em Literatura e Práticas Sociais (PósLit):

Esta palestra centra-se na fabricação de imagens em movimento no cinema digital. Este processo será discutido através de uma poética do trabalho, em vez de uma pura poética das formas, portanto de um estudo de processos que integra a produção na análise de filmes digitais. Influenciada pelo trabalho de Giuliana Bruno sobre a materialidade na cultura visual contemporânea, esta abordagem considera que a materialidade diz respeito à substância das relações materiais e não apenas aos materiais em si. Em três movimentos interligados que combinam discussão teórica com análise fílmica, esta palestra explora a digitalização como processo, o labor do digital e, finalmente, a produção cinematográfica digital. O argumento apresentado é o de que tornar o fabrico visível nos filmes digitais é transformar as suas imagens em movimento naquilo que tenho vindo a chamar de “imagens digitadas”, que podem ser relacionadas com o conceito de pós-digital. Isto é, que é o emprego das mãos que fabrica essas imagens, deixando uma série de marcas na sua composição e modulação, de gestos no sentido de Giorgio Agamben: o processo de tornar um meio visível enquanto tal.

As Kindled Wood

07.06.2019


Silent Light (Stellet Licht, 2007).

I am participating in the Early Career Conference in Catholic Theology and Catholic Studies, an event organised by the Centre for Catholic Studies at Durham University, with support from The Newman Association, The Catholic Record Society, and The Tablet on 12 June. My paper is called “As Kindled Wood: Imagery in the Thomistic Account of the Theological Virtues” and it is part of my dissertation for the MA (Res) in Theology at Durham. Here is the abstract:

In the Summa Theologica, Thomas Aquinas uses the image of wood on fire to discuss the theological virtues and the difference between the nature of human beings and that of God. He says that the nature of things can be defined in two ways: essentially and by participation. In essence, God and human beings have distinct natures and so the theological virtues whose object is God and divine nature transcends human creatures and their nature. But Thomas also argues that this sharp distinction is somehow blurred in the definition by participation that stresses how humans can take part in divine life. He writes: “as kindled wood partakes of the nature of fire […], after a fashion, man becomes a partaker of the Divine Nature, […] so that these virtues are proportionate to man in respect of the Nature of which he is made a partaker.”

This paper aims at meditating on the uses of this image in Thomas’s commentaries on the theological virtues. Kindled wood is used in an analogical sense (as) as well as a purposive sense (so that). This discussion relates to my research on the theological virtues in contemporary cinema and to the way in which the imagery of some films interrogate and deepen our understanding of these virtues. These cinematic examples, which I shall briefly explore, have similar functions to the image of kindled wood, but are more dense and complex. They are not analogical, but depictive, representational. Yet still (and this is a most important theological point, I think), a depiction of theological virtues or divine gifts is always analogical, in the sense that it resembles what it tries to describe or to render yet it’s still invariably different (such divine things cannot be fully described or rendered in detail) — as different as God and creature. They allow us to develop insights about these divine gifts through human portraits.

Digitar o Digital

20.05.2019


Adeus à Linguagem.

No próximo dia 23 participo no primeiro Seminário de Primavera (On Cinema), organizado pelo Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) da Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto, e o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (ILCML) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trata-se de um novo fórum de discussão das novas práticas de investigação sobre cinema. Surge da necessidade de pensar como a cultura fílmica tem evoluído, como a sua experiência estética se transformou, e como podemos caracterizá-la no presente. Mais informação aqui.

O meu contributo intitula-se “Digitar o Digital” e tem o seguinte resumo:

Sendo o cinema digital frequentemente baseado numa estética da pós-produção, o trabalho que produz as suas imagens em movimento torna-se menos visível do que no cinema analógico, que depende mais da fase de rodagem. Este desaparecimento do trabalho e dos trabalhadores na indústria cinematográfica pode ser transformado em presença através da análise fílmica, atendendo ao modo como o filme torna presente as operações que o geraram. Embora o cinema digital, como toda a arte digital, se materialize na produção, a sua natureza aparentemente imaterial ou multimaterial tem facilitado o apagamento e o esquecimento do trabalho que o origina. As imagens em movimento produzidas por esse tipo de filme podem ser consideradas como pertencentes a uma longa linha de imagens produzidas pela mão humana, usada há dezenas de milhares de anos para servir como estêncil ou para manipular pigmentos na pintura rupestre pré-histórica, e empregue hoje para criar e moldar elementos digitais para o cinema. As imagens digitais são, neste sentido e em primeiro lugar, imagens digitadas. Ou seja, é o emprego das mãos e dos dedos que fabrica essas imagens e deixa uma série de marcas na sua composição e modulação. Por isso, é necessário considerar como elas são produzidas e sob que condições, não apenas neutralizando a obliteração e a desvalorização do trabalho, mas também reconhecendo que a apreciação estética do cinema digital deve levar em conta a produção na sua base. Para desenvolver esta reflexão dialogarei com pensadores como D. N. Rodowick, Claire Colebrook, e Jacques Derrida, e analisarei brevemente dois filmes recentes de Jean-Luc Godard: Adeus à Linguagem (Adieu au langage, 2014) e O Livro de Imagem (Le livre d’image, 2018).

Apresentação de Dar a Ver o que nos Cega de Abílio Hernandez Cardoso

16.05.2019

Jean-Claude Brisseau (1944-2019)

12.05.2019


Céline (1992).