O Urbano e o Doméstico

28.11.2016


The Big Heat.

Começa hoje a Conferência sobre Espaço e Cinema, organizada pelo Centro de Estudos Comparatistas na Universidade de Lisboa. Todas as informações sobre este importante evento científico estão disponíveis aqui. Vou participar na conferência com uma comunicação intitulada “O Urbano e o Doméstico: Os Espaços do Film Noir Americano”, com o seguinte resumo:

Os espaços urbanos e domésticos estão no cerne do film noir americano desenvolvido nas décadas de 1940 e 50. A ligação entre estes espaços e o noir não pode ser considerada apenas através da associação entre a cidade e o crime ou da separação entre a casa e a violência. O contexto deste género teórico pensado por críticos franceses deve ser levado em consideração, de uma forma mais ampla e precisa, como o universo real e imaginário habitado pelas suas personagens. Estudar filmes como Double Indemnity (Pagos a Dobrar, 1944) e The Big Heat (Corrupção, 1946) revela uma arqueologia do noir como narrativa da cultura espacial dos EUA e, em simultâneo, como um meio de imaginar essa cultura. O que emerge é a dimensão social dos filmes noir que põe em contacto várias épocas e diversos lugares com a escuridão e a inquietação de um pesadelo. O film noir americano foi produzido num período da história dos EUA na qual o medo imperou. As feridas deixadas pela Grande Depressão ainda estavam frescas e o comunismo era visto como uma ameaça permanente na esfera pública e privada.

O território do noir é uma imagem múltipla da história dos EUA que começou com o desenvolvimento de áreas povoadas apreendidas e áreas despovoadas ocupadas que foram sendo agregadas. Desta junção resultou um espaço centrífugo, descentralizado através dos esquemas de crescimento, das auto-estradas interestaduais, dos planos de tráfego, e dos meios de comunicação de massas. Podemos dizer que este território só se torna tangível através da força da velocidade. A cidade do noir é, no geral, a nova grande cidade americana. As cidades modernas são palimpsestos compostos por restos de paisagens anteriores que são apagados ou relacionados por estruturas emergentes. Isto também se aplica às cidades americanas, apesar da sua juventude. Estes filmes tiram partido da capacidade que o cinema tem de projectar o passado de uma cidade e de registar vestígios das suas mudanças ao longo do tempo.

São vários os lugares do noir no quais as personagens circulam, vivem e morrem. As relações sociais são redefinidas espacialmente como um habitat e este ambiente físico e geográfico estende-se para os populosos subúrbios e para as zonas urbanas degradadas e abandonadas. Estas obras cinematográficas podem ser vistas como registos da resistência da cidade à transformação humana, como se o ambiente urbano tivesse uma vida própria que afecta de modo decisivo a vida dos seus habitantes. Este ambiente destrutivo e desagradável é um fruto e uma imagem do capitalismo.

Por fim, a casa do noir é, muitas vezes, um espaço privado estranho, vulnerável à insegurança vivida no espaço público. As interacções entre pessoas são, por essa razão, tipicamente encenadas em espaços comuns. As casas oscilam, contrastantes, entre as habitações sumptuosas dos vilões e a normalidade acolhedora das vulgares casas de família que é ameaçada ou destruída.