Ars Gratia Artis?

10.11.2016


Valse Triste (1977).

Apresento amanhã uma comunicação nas XIX Jornadas Históricas: “Homo Sapiens, Homo Ludens” em Seia, intitulada “Ars Gratia Artis?: O Lúdico e o Lúcido no Cinema”. Eis o sumário do que vou dizer:

Ars Gratia Artis é uma expressão em latim associada a uma visão da arte que afirma a sua autonomia absoluta. Cunhada por Benjamin Constant em 1804, foi o francês Théophile Gautier, figura chave do romantismo, que se empenhou na defesa acérrima desta ideia da “arte pela arte”. Para além do estudo das raízes filosóficas desta ideia (em particular, nos alemães Alexander Gottlieb Baumgarten e Immanuel Kant), importa discutir a sua persistência e função na sociedade capitalista, circunscrevendo o campo da arte ao lúdico que se basta a si mesmo. No âmbito do cinema, esta expressão não pode ser desligada do conceito de entretenimento — afinal, Ars Gratia Artis é o lema oficial da Metro-Goldwyn-Mayer, a grande companhia de produção fundada em 1924 nos EUA, gravado no seu logotipo em redor do famoso leão que ruge. Mas a ideia é também recorrente nos pensadores herdeiros da estética kantiana que estratificam a produção cultural de modo a diferenciar a priori o que é a arte, sem a necessária fundamentação crítica, negando-lhe a inscrição no tecido social e histórico. O “sem propósito” e “sem fora de si” da arte funciona assim como uma forma de omitir ou esconder as conexões determinantes que tecem, por exemplo, um filme. Esta ideia arrasta consigo, portanto, a perda da lucidez quanto às muitas possibilidades e perspectivas da arte cinematográfica nas vertentes da criação e da fruição, remetendo-nos para uma discussão mais alargada sobre as relações entre a arte e a sociedade.