Dos Olhos às Mãos de Cézanne

31.07.2014


Paul Cézanne, Garçon étendu dans l’herbe (1839-1906).

Robert Walser escreveu um conjunto de textos admiráveis sobre pinturas — em rigor, sobre as histórias desses objectos e das suas imagens. Lendo-os, percebemos que com a palavra “histórias” o escritor designa não apenas a dimensão narrativa que um quadro abre e que cabe ao discurso crítico descobrir e desenvolver, mas também a narrativa do processo de criação de determinada obra. Num curto escrito sobre os pensamentos de Paul Cézanne à luz da sua prática como pintor, Walser escreve:

O que observava tornava-se possuidor de múltiplos sentidos e o que criava olhava-o como se tivesse sido abençoado e ainda hoje nos olha assim.

Ter-se-á o direito de afirmar que deu uma grande utilidade à fexibilidade e à complacência das suas mãos, chegando quase a um estado de exaustão.[1]

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[1] Robert Walser, Histórias de Imagens, trad. Pedro Sepúlveda (Lisboa: Edições Cotovia, 2011), p. 77.